A Apneia do Sono e a saúde do seu coração

A Síndrome de Apneia obstrutiva do sono (SAOS) é um distúrbio comum, mas subdiagnosticado, sendo caraterizado por episódios recorrentes de obstrução das vias aéreas superiores durante o sono, resultando em pausas respiratórias. Estas pausas respiratórias originam diminuição da saturação de oxigénio no sangue periférico e, por vezes, também, aumento da pressão arterial de dióxido de carbono. Quando estes valores atingem determinado limiar, existem mecanismos de defesa que induzem despertares para que a pausa respiratória tenha um fim e o doente volte a respirar normalmente. Estes despertares repetitivos causam fragmentação e desestruturação do sono. Assim, este mecanismo protetor, torna-se na causa dos sintomas e das consequências desta síndrome.

A tríada sintomática típica da SAOS é roncopatia, sonolência excessiva durante o dia e pausas respiratórias testemunhadas durante o sono. Nem todos os doentes apresentam estes sintomas, podendo o quadro clínico ser mais inespecífico e o doente apresentar diminuição da capacidade de memória ou de concentração, irritabilidade, ansiedade, disfunção sexual, etc.

Os principais fatores de risco de SAOS são a obesidade, pois a gordura ao acumular-se ao nível do pescoço diminui o calibre da via respiratória, tornando mais fácil o seu colapso durante a noite; a genética, pois a amplitude e o calibre desta via é determinado pelos genes que herdamos dos nossos progenitores; o género masculino, de facto os homens têm o dobro da probabilidade de sofrer de SAOS em relação às mulheres; e a idade pois com o avançar dos anos, os tecidos e os músculos à volta da via respiratória tornam-se mais laxos e perdem a capacidade de manter a via aérea patente.

O diagnóstico da SAOS é feito através da realização de estudos polissonográficos, que podem ser realizados no domicílio ou em meio hospitalar, de acordo com o seu grau de complexidade e monitorizam parâmetros respiratórios, cardíacos e, até, eletroencefalográficos. Estes exames permitem avaliar a presença de pausas respiratórias, quantificar o seu número por unidade de tempo e a sua relação com determinadas posturas durante o sono ou com determinadas fases do sono.

A quantificação das pausas respiratórias ao longo da noite, permite-nos graduar a gravidade da SAOS e assim decidir qual o melhor tratamento a instituir. O tratamento mais eficaz e mais usado é o suporte ventilatório noturno com equipamentos que permitem manter uma pressão positiva contínua na via aérea ao longo de toda a noite, impedindo que esta colapse. Estes equipamentos chamam-se CPAP (continuous positive airway pressure) ou APAP (autoadjusting positive airway pressure). Nos casos de doentes que aliam à SAOS a presença de outras doenças respiratórias como a Doença Pulmonar Obstrutiva crónica (DPOC), Asma ou outras, poderá ser necessário usar ventiladores com algoritmos mais sofisticados como os BiPAP (bilevel positive airway pressure).

Existem medidas que diminuem a gravidade da SAOS e que devem ser respeitadas por todos os doentes com SAOS, tais como, controlo ponderal, evitando o excesso de peso; exercício físico regular, para fortalecer os músculos respiratórios, responsáveis por manter o calibre da via respiratória durante o sono; abstenção de tabaco pelo menos 2 horas antes de deitar, abstenção de álcool pelo menos 4 horas antes de deitar e não recorrer a comprimidos para dormir da classe das benzodiazepinas.

É mesmo importante tratar a SAOS, pois além dos sintomas e da má qualidade de vida que esta doença acarreta, aumenta o risco de acidentes de viação e de trabalho devido ao cansaço e à sonolência diurna excessiva que os doentes apresentam. Para além disso, também o risco de doenças cardio e cerebrovasculares como a hipertensão arterial, o enfarte agudo do miocárdio, as alterações do ritmo cardíaco e o Acidente vascular cerebral (AVC) é mais elevado nestes doentes.

Exatamente pelo fato de existirem mecanismos de defesa que acordam os doentes ao fim de alguns segundos em pausa respiratória para que voltem a respirar, é que surgem estes efeitos cardiovasculares e cerebrovasculares. Cada despertar é acompanhado de ativação do sistema nervoso simpático, e consequentemente, de aumento do ritmo e do débito cardíaco e da tensão arterial, o que vem a revelar-se altamente prejudicial para a saúde. Felizmente, o tratamento da SAOS, não só controla os sintomas como também diminui drasticamente os riscos associados a esta doença, nomeadamente os riscos cardio e cerebrovasculares.

Artigo do RESPIRARMELHOR da autoria de Marta Drummond, especialista em pneumologia com grau de consultor, competência em Medicina do Sono pela Ordem dos Médicos e professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto